Carta de um condenado

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 Filament.io 0 Flares ×

Vou ser rápido, para que não percam tempo a ler o emaranhado de pensamentos, que ocupam a minha mente, neste jogo de xadrez.
Sou culpado. Mereço as penas que o divino preparou para mim. Não vou por isso pedir desculpas, nem justificar o que deixei de fazer.
Sou culpado por amar tanto, os terrenos desertos e inóspitos que ofuscam a beleza da terra. É verdade. Prefiro a terra seca, à terra verde e abundante de vegetação colorida. Por isso, sou culpado, pois dediquei o meu tempo a tentar semear em solo que nunca deu frutos, quando deveria procurar solo fértil. Perdi o meu tempo, dizem, pois nunca de um solo deserto crescerá uma rosa, mesmo que o beijasse noite e dia, oferecendo-lhe a saliva do meu corpo.
Sou por isso culpado, por perder o tempo que deveria sair vencedor em lucros e proveitos, e neste mundo “onde o que se tem é ao que se dá valor”, eu nada recebi a não ser um monte de terra seca, poeirenta, que se há-de perder até ao final dos tempos.
Condeno-me à imortalidade, antes que o dedo em riste me cerque de investigações, e não prometo deixar de acreditar que é no solo infértil que devemos investir a alma.
Continuem a olhar os montes, vós que acreditais na verde esperança. Eu, já estou condenado e, como eremita, passarei as décadas vindouras a percorrer os secos mares, e as terras abandonadas, quiçá, até encontrar quem me escute e quem me veja.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *