Immortalis

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Para escrever um livro de poesia é preciso coragem. O poeta desnuda-se diante dos seus leitores numa transparência profunda, autêntica. “Porque na dúvida do que sou ou não sou / Existe um silêncio profundo / Que se esconde do mundo / E me faz chorar…”

Coragem também porque a poesia movimenta-se em contraciclo com a vertigem dos dias em que vivemos. Ler poesia não serve a gente apressada, impaciente. A poesia é para quem procura em silêncio algo que não sabe bem o que é, quem se deslumbra com a imagem criada por dois versos apenas: “Quero ser rainha / no coração de alguém”. A poesia é para quem se surpreende com a sonoridade de uma rima, quem se delicia com a harmonia na conjugação de duas palavras, quem garimpa a beleza no ritmo de um poema como se fosse um tesouro perdido. Um poema, como uma transcrição do sentir do poeta é uma semente de beleza que ele faz pairar à volta do leitor. Mas, quando o lemos, ele deixa de ser o poema do poeta e passa a ser o nosso poema. É como se o reescrevêssemos usando as emoções e vivências particulares.

Goethe disse que a poesia era a verdade. É a verdade porque ela não é mental ou racional, é visceral, vem de dentro, é tradução do que sentimos e pressentimos, a poesia é emocional. E as nossas emoções podem ser boas ou más, dolorosas ou agradáveis, benéficas ou prejudiciais, mas são sempre verdadeiras. Saber escutá-las e orientá-las é talvez o maior requisito da harmonia e da serenidade que procuramos. “E apesar da dor da verdade o futuro é felicidade.”

E por isso, falar de um livro de poesia é falar sobre o que ele nos fez sentir, quais as emoções que nos despertou, que ressonância emocional conseguiu alcançar. Imortallis é um livro que não se furta à transparência das dificuldades, da sombra, da solidão, mas enquadra-as numa perspectiva particular: “E se a aridez do tempo / se aquieta sobre a imensidão da terra, / o orvalho conserva-lhe a vivacidade / num chilrear de variedade / de seres a anunciar esperança.” Essa nova perspectiva é assumida sem disfarces: Espiritualidade. Uma espiritualidade sem um rosto definido, sem formalismos, uma espiritualidade que vem de dentro e que nos procura ligar à beleza e transcendência, despertar-nos da apatia, devolver-nos a confiança em nós e nos outros, libertando-nos das amarras do medo e da solidão. Uma espiritualidade que nos empurra para a contemplação daquilo que não queremos ver e que nos inspira a dar o melhor de nós próprios em qualquer circunstância da vida, tendo como principais motivações a vontade de sermos melhores, de vivermos melhor e construirmos um mundo melhor. “Tudo acontece dentro de mim. Evoluir: o caminho, o fim.”

Por Carlos Miguel Pereira